sexta-feira, 2 outubro , 2026

Temer, temeridades, feminismo

No dia simbólico das lutas femininas por igualdade, me vem um presidente da República, exatamente o da “minha” República, fazer um discurso que homenageia valores que todos queremos superados.

No seu tributo está a valorização daquela mulher que, à sua revelia, foi feita cuidadora dos filhos por “vocação”, gerente do lar por “destino”, tarefeira de supermercado, supridora de despensa.

É verdade que milhares de mulheres ainda estão atreladas a estes deveres, muitas vezes cumprindo-os ademais de outras funções desempenhadas “fora do lar”: uma estafante dupla jornada sem remuneração.

Tais funções não desmerecem ninguém; são relevantes em si. O que uma mentalidade antiquada não compreende é que não cabe o elogio do fadário social que demarca lugares masculinos e femininos.

A fala desastrada de Temer louva a mulher do patriarca, a senhora das coisas da casa. Um arenga que não cabe: as mulheres não carregam essa “natureza”; elas querem se livrar dessa “índole” construída pelo machismo.

Essa compreensão infeliz já não é possível até mesmo porque os homens minimamente esclarecidos discursam e procuram praticar igualdade, inclusive na vida doméstica. Temer é um homem de outros tempos.

Um homem com a cabeça na contemporaneidade pode até conflitar: teve uma educação; os valores circulantes são outros. Mas uma pessoa de elevado cargo público haveria de assuntar-se melhor, no mínimo.

Temer deveria compreender esse assunto. Ele não cai nisso desavisadamente. Tem antecedentes nesses seus procedimentos machistas. Foi duramente criticado por compor um ministério sem uma única mulher.

A presença da mulher na administração do País, aliás, já não pode decorrer apenas de simbolismo. Há inúmeras mulheres capazes de compor o governo federal, iguais que os homens, sem dever nenhum favor a ninguém.

Nem mesmo como marido Temer está atual. Jamais posicionou-se diante da revista que, sem ouvi-la, em texto recheado de ironia, carimbou, para escracho nacional, sua esposa Marcela de “bela, recatada e do lar”. Se tenho que lhe reconhecer as medidas de recuperação da economia, na seara dos costumes só lhe tenho a deplorar. Temer cumpre um tempo ideológico que dava às mulheres a condição de “prendas domésticas”.

Prenda significando predicado, qualidade, aptidão; doméstica expressando uma condição forçada de estar no mundo; ideologia conotando um modo de pensar determinado por circunstâncias sociais. Eis o que nos governa: o presidente restado do combo PTPMDB é emprenhado ideologicamente por essa compreensão vencida do feminino: uma aptidão para estar no mundo sob cuidados e para cuidados.

O dicionário resume: destino é “tudo o que é determinado pela providência ou pelas leis naturais” (Houaiss). Providência é a divindade do ensinamento cristão das “consciências”; leis naturais são o cientificismo machista.

A mulher angelical, frágil, limitada e reprodutora, criação da tradição semita, cristã, católica referendada pela demonstração “científica” que confirmou essa “vocação”, é um valor ainda fartamente circulante. A desconstrução dessa cultura de milênios está acontecendo agora, no nosso tempo, e em muitos lugares do Planeta. E cabe lembrar: o rescaldo patriarcal não é coisa apenas do Brasil e não só homens professam o machismo.

Um eurodeputado polonês (católico) pensa assim; um presidente norte-americano (protestante) foi eleito fundado nisso; um presidente brasileiro com valores de paróquia repete, suponho que alienadamente, essas coisas. Ignoro o eleitorado do parlamentar. Trump obteve quase metade dos votos femininos; mais da metade das mulheres brancas o apoiaram. Dilma fez Temer seu companheiro de chapa e de governo em duas oportunidades.

Sim, sei: circunstâncias eleitorais; respeito à “nossa” religião. Mentira. Concessões oportunistas. Negocia-se a “alma”, colhe-se resultado “desalmado”. Certas coisas não são concessíveis. Ou patinamos no que temos sido.

Temer, malgré lui, nos presta obséquio: acelera essa revolução de costumes bons, o feminismo. A cada temeridade sua, mais repúdio ao reacionarismo, mais se assentam conquistas feministas. Que venham outras.

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